Terça-feira, Dezembro 24, 2002


Pétalas
(Herbert Azul/Alceu Valença)
As borboletas voam sobre meu jardim
São cores vivas, pousam sobre as onze horas
Nas rosas claras, violetas e jasmins
Um beija-flor traindo a rosa amarela
Beijou a bela margarida infiel
Papoula e dália estão cravadas de ci;úmes
E o beija-flor beijando flores a granel
Pétalas, asas amarelas
Pétalas, espinho seco
Folha, flor, lagarta
Pétalas
As flores voam e voltam na outra estação
Só serei flor quando tu flores no verão
Só serei flor quando tu fores no verão.


p/ minha mulher árvore
'/ minha pétala.
A primeira vista (chico César - o rei-)

quando não tinha nada eu quis
quando tudo era ausência esperei
quando tive frio tremi
quando tive coragem liguei
quando chegou carta abri
quando ouvi prince dancei (salif keita)
quando o olho brilhou entendi
quando criei asas voei
quando me chamou em vim
quando dei por mim tava aqui
quando lhe achei me perdi
quando vi você me apaixonei

Sábado, Dezembro 14, 2002

Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Pôe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis.

Sexta-feira, Dezembro 13, 2002

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.


Leminski

Com amor. O que faz valer a pena.

Quarta-feira, Dezembro 11, 2002

Espiando por entre os dedos
Entre fechar os olhos e ver
Em espaço que ainda é sonho.

Nos dedos, os olhos, toque.
É compasso de espera.
Tirar as mãos das janelas, luz completa,
sem véus. Não mais a cortina.

Sol. Só.
E ainda assim, tudo.

E eu, que não nasci pra poetisa
apenas pra Artesã, e Amadora,
por só saber amar,
sigo construindo meu mosaico de entrelinhas.
Teço e desteço minha renda.
Nó a nó, o véu que se desfaz.

Meu descanço, minha paz, você, nós, juntos.

Domingo, Dezembro 08, 2002



De mãos dadas.
Compartilhar.
Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

Mario Quintana
Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar os olhos para ver-te!

Mário Quintana


Quinta-feira, Dezembro 05, 2002

(Já sei namorar- TribalistaS)
Ja sei namorar
Ja sei beijar de língua
Agora, só me resta sonhar
Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora, só me falta sair
Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também
Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora, só me falta ganhar
Não tenho juiz
Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz
Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também
Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo como Deus quiser
te querendo eu te quero
Tô te querendo como se quiser

Quarta-feira, Dezembro 04, 2002

O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Cora Coralina
Mors-Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável mas plácido no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz "Eu sou a morte",
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor".

Antero de Quental